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Monday, May 23, 2011

diário

agora que se esgotaram as páginas do nosso caderno, já posso começar a escrever nas margens do teu corpo.

Saturday, April 30, 2011



vontade de ter na boca a terra molhada do teu corpo

Saturday, April 23, 2011

Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética”

Sunday, April 17, 2011

Saturday, April 2, 2011

serpente

O meu corpo não precisa de música para esta dança tribal que vem de dentro da pele, dos músculos, dos nervos: tem o ritmo do teu sangue pulsando na polpa sensível dos meus dedos, a tua respiração no meu pescoço, qualquer coisa que ouço nos teus olhos e que a tua boca não ousa cantar.

Dança, meu corpo, que ninguém te vê, oculto nas sombras do quarto, e ninguém ouve o segredo musical estoirando por dentro de ti.

Dispo-me, novamente Eva antes do pecado, ornamento-me de penas de fantasia no cabelo, novamente animal antes de Eva, bicho da terra, rastejante, sibilino, sou eu a própria serpente dançando ésses em dunas que mudam de lugar (os tambores do teu sangue tão retumbantes nos meus tímpanos), não obedeço a ninguém, vim do deserto, de uma árvore, da corrente turva de um rio verde e sou a verdade da carne da terra da seiva da morte. profundamente viva.

Wednesday, March 23, 2011

Internacional do fetiche


abri o blogue, olhei rapidamente para a lista de outras paragens e achei que em "O caderno de Saramago" o título era "Internacional do Bondage". Por uma fracção de segundo fiquei animada. Afinal, depois do Dia Mundial do Orgasmo e do Dia Nacional das Zonas Húmidas, faltava um dia dedicado a um fetiche específico.

extinto

o incêndio aumentado no meu corpo crescendo no vendaval de loucura sobre a cúpula verde da minha juventude. vejo a resina perfumada e inflamável, escorrendo lentamente do golpe que a tua mão vibrou em mim, no fim do teu corpo, lenta chama azul de álcool ou brasa de torga retorcida. verdade funda de intimidade violenta: a minha pressa e o teu espanto, a minha vontade e os teus olhos feiticeiros adornados de penas que trazes para construir as asas do meu corpo, ave súbita de labareda, que logo logo torna à cinza: fénix ao contrário.

Tuesday, January 25, 2011

Brincadeira

(Man Ray)


O meu corpo O teu corpo
O meu corpo e o teu corpo
Corpoacorpo
O meu corpo é o teu corpo
Os Corpos
Um Corpo
O Arrepio

Friday, December 17, 2010

nas minhas mãos

O desejo todo concentrado nas minhas mãos
unhas tendões nervos falanges pele gelada
transpirada.
Seguro um cálice na mão e esmigalho-o
sob a força dos dedos os vidros enterrando-se na carne,
um prazer lancinante a lembrar-me o teu corpo
_o meu corpo
árvore no claustro dos teus braços, arcadas de abrigo,
eu árvore encarcerada, enraizada,
o teu nome inteiro escrito a golpes de navalha no tronco,
e a seiva que escorre de mim perfumada
mel na tua língua.

Sunday, December 12, 2010

na parede

(Foto de Carla Alves)

Wednesday, August 25, 2010

Sunday, May 16, 2010

Pela vossa saúde

Um aturadíssimo estudo, baseado no comportamento de algumas espécies em contexto queima-fitístico e no testemunho esclarecido de reputados especialistas, permitiu-nos concluir que, tal como a SIDA, a BURRICE é uma doença sexualmente transmissível e altamente contagiosa. Proteja-se: antes do sexo, faça um teste... de QI.

Friday, March 26, 2010

Na cama com...

...Vergílio Ferreira:

"Deitada sobre a cama, noite de lua, ofegante. O lençol desce-te até ao ventre, na luz pálida que passa pela cortina transparente, vejo-te, estaco fulminado _"deita-te"_ , ergues um joelho sob o lençol, os dois seios nus pousados no peito, a mancha da face entre os cabelos escuros desalinhados. Rápido, destro, a urgência fina e funda, intenso, violentíssimo, o meu corpo erguido na noite, um clarão suave abrindo ao alto no teu quarto. Ágil, curvilíneo, plasmado às vagas do teu calor, massa densa e húmida, a humidade ressuma da íntima fermentação, lúbrico, lubrificável. Duro, reteso. Toda a violência da terra, mastigação vulcânica, laboriosa, do plasma original, apontada a ti, centrada massa endurecida irrompe, ameaça tensa como um dique de pressão crescente ó Deus, ó Deus, e como é belo um punho cerrado a cólera hirta de olhos estoirando no fundo de mim e a procura cega do mais absoluto exigente vigoroso a raiva, a raiva, arre! tu, máximo inacessível e tão perto _a invasão expande-se na onda de orgulho alta como o poder concreto de todas as forças conglomeradas, tomba, impacte brutal, alastra à babugem escumosa na praia aberta, efervescente vencida no trémulo cisco ainda esfervilhando ainda faúlha breve aqui e além no estertor do fim escorrida em baba e em choro reabsorvida na areia porosa da terra que recomeça..."

"Alegria Breve"

(Um cigarro)

Monday, November 9, 2009

Esclareça-me, tia

Estou enrolada numa manta a recuperar do trabalhão do fim de semana na Zara (mas toda a gente decidiu comprar roupa agora por alma de quem?!) e apanhei um programa da tarde onde um jovem beto cabeludo, de apelido estrangeiro, dizia à jovem esposa (possivelmente herdeira de montes no Alentejo) : "Partilhar o dia-a-dia consigo é um privilégio."
Ora, eu nasci e vivo nas Beiras e não faço ideia de como é que as coisas funcionam na Linha, mas na minha terra dois jovens recém casados tratam-se por tu. "Partilhar o dia-a-dia consigo é um privilégio" seria frase que eu usaria para dar graxa a um chefe e não para me dirigir a alguém com quem partilho o copo da escova de dentes.
A tia, que nunca se manifestou, mas que eu acredito que lê este blog, diga-me: na cama, este tipo de marido dirá "Querida, desculpe, importa-se que eu profira um palavrão?" ou "Pegue-me no croquete."?


Entretanto estou a lembrar-me de muitos outros trocadilhos do género... :D

Friday, September 18, 2009

Da ressaca


acordei com a rara lucidez do torpor alcóolico, o cabelo a cheirar a tabaco e a chuva, para encontrar apenas a imaculada planície dos lençóis a negar-me aos gritos o arrepio de outro corpo. e tudo por causa de uma borboleta cor-de-rosa.

Helena Abreu

Sunday, August 9, 2009

selva

entro com cuidado, à procura da emboscada dos teus olhos. vejo-te ao longe, de cabeça baixa, o emaranhado escuro dos cabelos na nuca, o perfume irresistível de sangue que sobe do teu pescoço... e tenho que reprimir o instinto de te esquartejar com os dentes, antes que tenhas tempo de olhar para trás.

Wednesday, June 10, 2009

desejo


Queria-te assim. Inesperado. Um súbito arranque irreflectido. A urgência contida na força das mãos, nos dentes cerrados sobre a pele, as costas contra a parede.

E que te fosses, depois, enquanto ainda houvesse no ar a poeira da explosão. Definitivamente?

Brassai