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Monday, May 23, 2011

diário

agora que se esgotaram as páginas do nosso caderno, já posso começar a escrever nas margens do teu corpo.

Saturday, May 21, 2011

tu

meu poema que não sei dizer
versos nus de pele incendiada
e um coração a rimar com o meu
cavalo de sangue à desfilada.

Monday, May 16, 2011

Vem brincar:

faz de conta que és uma criança e eu um balão flutuante, redondo, vermelho, atado ao teu pulso por um cordel. Não me deixes voar para longe, tenho medo da noite e do espaço. O espaço deve ser uma imensa solidão sem música. Não é lugar para um balão vermelho como eu.


Wednesday, May 11, 2011

Tinha de ser...

uma varanda sobre o mar ao fim da tarde, e a dança dos corpos (planos de luz interceptados)

"É, só eu sei, quanto amor eu guardei
Sem saber que era só pra você
É, só tinha que ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você

É, você que é feito de azul
Me deixa morar neste azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonito demais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim"

Saturday, April 23, 2011

Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética”

Sunday, April 17, 2011

de mãos dadas



Gracias a tu cuerpo doy
Por haberme esperado
Tuve que perderme pa'
Llegar hasta tu lado

Gracias a tus brazos doy
Por haberme alcanzado
Tuve que alejarme pa'
Llegar hasta tu lado

Gracias a tus manos doy
Por haberme aguantado
Tuve que quemarme
Pa'llegar hasta tu lado

Wednesday, April 13, 2011

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

Sunday, April 10, 2011

Há bandas sonoras maravilhosas, não há?



Tu me acostumbraste
A todas esas cosas
Y tu me enseñaste
Que son maravillosas
Sutil llegaste a mi
Como una tentación
Llenando de ansiedad
Mi corazón.

Yo no comprendia
Como se queria
En tu mundo raro
Y por ti aprendi
Por eso me pregunto
Al ver que me olvidaste
Por qué no me enseñaste
Como se vive sin ti?

Saturday, April 2, 2011

serpente

O meu corpo não precisa de música para esta dança tribal que vem de dentro da pele, dos músculos, dos nervos: tem o ritmo do teu sangue pulsando na polpa sensível dos meus dedos, a tua respiração no meu pescoço, qualquer coisa que ouço nos teus olhos e que a tua boca não ousa cantar.

Dança, meu corpo, que ninguém te vê, oculto nas sombras do quarto, e ninguém ouve o segredo musical estoirando por dentro de ti.

Dispo-me, novamente Eva antes do pecado, ornamento-me de penas de fantasia no cabelo, novamente animal antes de Eva, bicho da terra, rastejante, sibilino, sou eu a própria serpente dançando ésses em dunas que mudam de lugar (os tambores do teu sangue tão retumbantes nos meus tímpanos), não obedeço a ninguém, vim do deserto, de uma árvore, da corrente turva de um rio verde e sou a verdade da carne da terra da seiva da morte. profundamente viva.

Saturday, March 26, 2011

Fecho os olhos à escuridão
que corre fora das janelas fechadas
as mãos com os teus beijos guardados
dentro de mim a luz
que os meus olhos sussurram
obscuros como tu dizes
o meu nome à flor dos lábios
do fundo da noite
da curva do chão do corpo
espiral ressoando o teu nome
no silêncio do meu coração
que encontra na solidão
a forma de estar contigo.

Monday, March 14, 2011

desenha-me

Vamos ser felizes numa folha de papel? Desenha a tua mão e a minha juntas no abrigo do bolso do teu casaco, e um sorriso cúmplice a dispensar todas as palavras. Desenha-me peixes escorregadios a fugir na corrente, e um dragão de fogo vermelho e grandes asas de pano _ tantas palavras que nos fogem ou que não temos a certeza se existem. Se as palavras nas nossas mãos, as nossas vidas sem medida, tão grandes...
Mas não te disperses, agora. Desenha-me a mim a ver-te dormir, sem me mexer, para que não abras os olhos e não desfaças as sombras das tuas pestanas sobre a face. Vamos ser felizes com flores no parapeito da janela da cozinha, uma rede no alpendre e a chuva mansa sobre a terra lavrada, o cheiro a maçãs e a canela entranhado nas madeiras e nas mantas de lã sobre o sofá. Inventa-me uma casa com uma escadaria de dois lanços, sete degraus cada um, um corrimão por onde eu possa escorregar quando a pressa ou a brincadeira me apanharem. Desenha-me um lago pequenino, com patos de pescoço surrealmente verde, pinta-o de azul, com lápis de cera, e ao lado nós, segurando nas nossas um par de mãos pequeninas.

Sunday, March 13, 2011

sabes,

Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.

Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.

Natália Correia, in Poemas (1955)


Wednesday, March 9, 2011

Friday, March 4, 2011

(black and) blue

O dia tinha que pôr-se assim, chuvoso, sombrio, a concordar comigo que amanheci de negro sem querer acordar. Um bocadinho de mim a morrer todos os dias e a doer-me não sei bem onde_ cada dia que passa é um dia mais tarde, até ser tarde demais. Para tudo.
Uma voz na minha cabeça cheia de interrogativas, respondia-lhe se percebesse as perguntas que me faz ou se as respostas fizessem sentido. Mas assim fico calada, a chuva a teimar sem cair, lá fora. No ecrã da televisão os ensaios de triplo salto e de 400 metros e de lançamento de peso: fico por um momento presa aos movimentos dos atletas, o balanço, a tensão dos músculos, o voo e a queda, tudo tão certo e belo como a vida.
O meu coração um peso atirado para longe, chumbo com asas, a cair a pique, de repente, no relvado. Apanha-o, vá lá, segura-o na tua mão, tenta outra vez, fá-lo voar. Talvez um dia não caia e flutue no espaço, imune àquela força que atrai todos os corpos para o centro da terra.

Wednesday, March 2, 2011

terra natal

Passeamo-nos sob as magnólias, o sol de inverno tocando ao de leve a cera rosada das pétalas, ainda gélidas do assombro de uma madrugada grande de limpidez e silêncio. Tinhas uma pestana caída e eu colhi-a da tua face com a ponta dos dedos. E soprei-a para longe, sem a prender para pedir qualquer desejo, porque o desejo estava concretizado.

Wednesday, February 16, 2011

Tuesday, February 15, 2011

entrega

aceita a prata que a manhã derrama sobre o rio. o voo elíptico das gaivotas à flor das águas. os círculos concêntricos das gotas de chuva nos charcos azuis, expandindo-se como o meu sexo sob o teu corpo.
aceita os meus lábios. e a polpa redonda dos frutos à sombra das folhas. o cristal da neve rangendo sob os teus pés e as núvens aumentando precipícios verdes.
aceita o sol pousando doce no ouro das acácias.
aceita os meus braços sobre os teus ombros.
aceita a música, a magia, uma súbita flor numa fresta do muro.
é tua a face rosada do céu encostada à noite que chega das montanhas e é tua a lua de agosto e as estrelas que chovem, oferecendo todos os desejos.
é tua a minha liberdade, a minha juventude, a escuridão dos meus olhos. dou-te a minha vida a beber das minhas mãos em concha.
sou eu. é pouco. mas é teu. aceita.

Tuesday, February 1, 2011

para nós, que falamos demais

" [...]

o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitamos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas

[...]"

Alice Vieira, Cinco breves momentos de Maio

Wednesday, January 26, 2011

sonho de uma noite de inverno ou as portas fechadas

Corri para chegar a ti. Saltei todos os muros, arrombei todas as portas, percorri em pânico escadarias labirínticas. Sabia que me esperavas e não podia atrasar-me. Mas tudo eram obstáculos. Tantas pessoas se atravessaram no meu caminho: seguraram-me, atrasaram-me, tentaram distrair-me, demover-me. Eu não quis ver ninguém, quis-te a ti e corri corri sempre. Não cheguei. Acordei. Porque te ouvi chamar-me pelo nome e sussurrar: estou aqui.