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Thursday, April 14, 2011

the inconsequential me



Há quem seja assim. Transparente. Invisível. Irrelevante. Hoje, fui eu.

Thursday, December 2, 2010

Negação

Deixei de acreditar num Deus e às vezes dói tanto essa falta de fé... Porque admitir a inexistência de Deus é admitir que estamos sozinhos e, se estamos sozinhos, somos tão livres quanto responsáveis e tão nós-mesmos quanto desamparados. E hoje senti-me desamparada e sozinha, sem ninguém a quem pedir só um bocadinho de força para enfrentar o medo terrível de uma perda irremediável.

Friday, July 23, 2010

vértice



Voltei ao meu ninho, como sempre volto quando a vida me maltrata e me atira brutalmente contra as paredes dos fins de todas as coisas.

O teu silêncio de lágrimas a doer-me, está um dia seco de Verão, passo ao lado do cemitério e decido entrar. Ainda não tenho aqui ninguém. Mas é um aconchego a brancura do mármore, o sábio silêncio dos mortos, e aquela estátua negra da Morte, na atitude de uma mãe que se prepara para nos beijar a testa. Preferia talvez que a morte me beijasse na boca, mas isso são privilégios da Vida, que é cruel e oferece e arranca, beija e esfaqueia, sorri e insulta.

Mas como é bela, essa estátua da Morte, envolta num longo manto de musgo e verdete, a lembrar-nos a paz e a justificar tanta coisa com a trasitoriedade de tudo...

Alguns metros depois, todos os lugares da minha infância de verdade e joelhos esmurrados: as árvores a que subia, os muros em que me esqueci tantas tardes, à procura de respostas _ respondias-me, se tivesses estado lá, nessas noites aéreas de feno e calor? _ a minha casa agora ao abandono, ainda com as minhas roseiras brancas a florescer na sombra, e o meu quarto intacto, uma boneca nua e sem cabelo em cima do roupeiro, para lá da janela.

Tudo o que eu gostava que soubesses de mim e não hás-de saber nunca. Eu sempre um vértice solitário no final de duas rectas de distância.

Sunday, June 20, 2010

esboço longe da vista

se tivesse que pintar esta noite, escolheria para o céu a profundidade dos teus olhos, com umas pinceladas leves dessas núvens de tristeza que às vezes os atravessam. a lua seria o teu sorriso, claro, e esta bruma fresca teria o carmim do teu beijo. desenharia depois as árvores à imagem da tua pele, e deixaria no canto inferior esquerdo, à laia de assinatura, a pequena figura negra de uma mulher abismada perante a dor de uma ausência. como moldura, o ouro do silêncio apertado que soubeste dar-me hoje.

Wednesday, May 12, 2010

pá...

... sabem quando a nossa vida parece que se repete por qualquer razão, e estamos sempre a sofrer o mesmo tipo de decepções, ou de rejeições ou algo assim do género, e já nem há muito a dizer, porque o que estamos a sentir agora é o mesmo de há 1 ano atrás , e de há 3 ou 6 ou 10, e só mudam as pessoas? E depois ficamos a pensar se é o malvado destino, ou a vida, ou culpa nossa? E encolhemos os ombros, olha, azar, comigo é sempre assim, também já estou habituado? Pronto. É isso.

Wednesday, May 5, 2010

Livro Amarelo

RECLAMAÇÃO


Ex.mo Senhor Deus:


Venho por este meio mostrar a minha indignação perante os defeitos de fabrico inerentes à construção da minha pessoa que, não sendo imputáveis aos meus pais, parentes, amigos, conhecidos ou qualquer outra entidade pública ou privada, por exclusão de partes, só podem ser da responsabilidade de V. Exa.

Assim, e em ordem aleatória:


1) O que os outros espécimes humanos conseguem fazer em 10 dias, eu preciso de 10 anos;


2) Sou incapaz de manter viva qulaquer planta (incluindo cactos) que esteja a meu cuidado, por muito que me esforce;


3) Possuo dois pés esquerdos de tamanho 39.


4) O meu cérebro não tem a função de "suspensão" ou "hibernação", resultando na viciação da bateria e no sobreaquecimento frequente dos neurónios.


5) Tenho alergia ao estrangeiro, à Primavera e à Beyonce.


6) Sofro de pessimismo crónico;


E podia continuar como se não houvesse amanhã. Mas, infelizmente, há.


Assim, deve V. Exa. dignar-se reparar as falhas de equipamento acima descritas com a maior brevidade possível ou, caso a reparação não se mostre viável, a substituição deste equipamento por um novo numa próxima reencarnação.


Sem outro assunto



Wednesday, March 10, 2010

Para sempre Vergílio


Em comentário a um post do Diaporese, escrevi:


"Depois de ler "Para Sempre" e de descobrir que o corpo de Vergílio estava sepultado num canto do cemitério dessa aldeia que sempre foi a sua, virado de frente para a Serra, tal como pedira, não resisti a procurá-lo. Encontrei a casa. E encontrei-o. Era Verão e o chão queimava, sentei-me na beira da campa rasa como na beira de uma cama acabada de fazer. Senti-lhe a presença de brasa incandescente sob as cinzas e pedi-lhe que me pusesse a mão sobre o ombro (tantas vezes me apeteceu essa mão sobre o ombro quando me perdia nos teus livros). Conta-me, Vergílio, diz-me o que vês. Permaneceu em silêncio, e no silêncio ouvi-o: olha, a enorme massa da montanha sob o céu carbonizado... Eu vi. Fechei os olhos. Já sei onde te procurar. A vontade de ficar aqui, para sempre."

21 de Janeiro de 2008 15:05


Quando escrevi isto, nunca tinha ido a Melo, nem nunca tinha visto a campa de Vergílio. Fui depois (contigo Zé, lembras-te?) e a surpresa foi nula, porque era como se já tivesse estado naquele cemitério dezenas de vezes. Não hesitámos sequer no caminho até à sepultura, fluímos para ela como se não houvesse mais nenhuma.

Lembro-me de ter pensado em como era curioso que um homem que passou toda a vida a afirmar aos gritos que a morte é um nada-nada, tivesse deixado escrito o desejo de ser enterrado de frente para a montanha... Sorri. Somos mesmo assim: Ternurentamente crédulos, apesar de apontarmos a nós próprios a arma da racionalidade, carregada de argumentos. Pólvora seca, talvez. Vou voltar a Melo, Vergílio. Já estou cheia de saudades.

Wednesday, February 4, 2009

Texto escrito às escuras numa destas noites

Faltou a luz, por causa do temporal. Ficou tudo mergulhado na escuridão. Escrever à luz da vela é uma experiência quase macabra, principalmente se o vento bate com a força de um oceano contra a muralha granítica da serra e reflui em ondas por entre as copas das árvores. Dos alicerces da minha casa surge o crânio perfurado a tiro do primeiro empreiteiro. Ouço-o chorar lá fora, sentado no muro do alpendre, abanando os pés sobre a sua obra eternamente inacabada.
Queria que a luz voltasse. Medo que a vela se apague e me deixe cega outra vez, a tactear o caminho no imenso tédio de quem não vê. O medo de bater contra os móveis da casa, que aproveitam o escuro para nos rasteirar, colocando-se nos sítios mais extraordinários. Quando a luz regressar, voltarão num ápice ao seu lugar, assobiando inocências, de olhos no tecto.

Saturday, November 29, 2008

Agricultura

Um dia não quererei mais a cidade. Nesse dia vou abandonar o medo. Nesse dia vou esquecer como se escreve. Nesse dia não me sentirei sozinha. Nesse dia ponho o chapéu que foi da minha avó, esse que é de palha e tem uma fita, e sairei para o pátio e plantarei uma roseira num velho tacho de esmalte. E os meus olhos serão azuis, como as laranjas à janela da cozinha, como o milho a crescer no lameiro, como as uvas pendentes da latada, como o cão que dorme à sombra e a lenha empilhada sob o telheiro.

Sunday, November 9, 2008

Saturday, August 30, 2008

Saturday, May 17, 2008

Babel




Babel é o meu filme preferido. Desde Babel que tenho certa relutância em ir ao cinema, porque todos os filmes me parecem fraquinhos. Babel foi um marco na minha vida cinematográfica. Durante 2 semanas não pensava noutra coisa nem falava noutra coisa. Era uma obra prima (mais uma) de Iñarritu. Jurei nunca mais ver a cerimónia dos Óscares porque Babel perdeu para aquele outro filmezito("Entre Inimigos", ou lá o que era, daquele realizador que já não me lembro o nome) que nunca quis ver, por despeito.
Babel é perfeito. A história, a mensagem, a fotografia, os planos, a banda sonora, o encadeamento das cenas. A banda sonora. As interpretações. A banda sonora.

Preciso de um novo amor cinematográfico para superar este. Afinal, já lá vão 2 anos... Alguém tem sugestões?

Tuesday, May 6, 2008

Sonho


Era assim como um mar dividido ao meio por uma língua de terra. Um pouco como a Ilha do Baleal ao chegar o Inverno. Atravessei e entrei numa casa velha cheia de quartos e corredores e móveis velhos e relógios parados e uma luz coada por vidraças de pó. Sei que procurava alguma coisa, mas não me lembro bem de quê. A certeza de que uma mulher tinha sido assassinada naquele lugar. Havia pessoas em quase todas as divisões. Então encontrei-te. Deste-me um beijo desvairado e desapareceste. Atravessaste para a outra margem. Quando tentei seguir-te o mar fechou-se, como se tu fosses o Povo Eleito e eu o Egipto que te escravizava. Fim