Showing posts with label HAPINESS IS ONLY REAL WHEN SHARED. Show all posts
Showing posts with label HAPINESS IS ONLY REAL WHEN SHARED. Show all posts

Saturday, January 15, 2011

Constelações


Contar estrelas pode fazer crescer cravos nos dedos, bolinhas de carne tão difíceis de arrancar depois, e para além disso, as estrelas fugidias, a gozar comigo: já me contaste, afinal não, agora mudei de sítio, sou uma estrela ou um avião a caminho de um sítio qualquer com gente dentro? Eu: vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove. E elas: trinta e dois, cem, quinze, nebulosa. E eu perdida, a examinar os dedos onde não cresciam cravos, apesar de contarem estrelas. Continuo a olhar para elas, hoje que não sou criança, afinal sou, apenas mudei de sítio, não conto estrelas, mas conto sóis que se põem, pendurados nas núvens verdes que se estendem em socalcos até ao rio, e conto beijos que nascem dos teus lábios, espalhados pelo meu corpo, trinta e dois, cem, quinze, nebulosa, constelação. Uma Ursa Maior com a Polar na minha boca. Cravos a crescerem-me por dentro, vermelhos e brancos, não dos de carne, flores que custam tanto a arrancar e te ofereço no colo.

Sunday, September 12, 2010

Pérolas (re)encontradas

As primeiras páginas que usei para escrever foram as de um diário. Ainda não tinha feito 7 anos e continuei a usá-lo por muito tempo. À mistura com as confissões ridículas do costume, encontrei um conto que nunca cheguei a terminar. Quando o escrevi tinha 10 anos e, felizmente, o que me sobrava em imaginação faltava-me em sentido auto-crítico. Transcrevo-o tal como está (os erros são os do original).
"No tempo em que os animais falavam davam-se estranhos acontecimentos que vale a pena contar.
No Vale Feliz todos os animais se davam bem. As casas eram feitas de doces, as escolas mais divertidas.
O Vale Feliz era um estranho lugarejo esquecido.
Mas vamos à história.
Bem no centro da aldeia havia uma casa muito grande, mas apenas se conservava o seu interior. Era uma casa velha, o jardim era uma selva, excepto um grande castanheiro que permanecia ali dando beleza àquele lugar.
O Nico e a Mariana eram dois irmãos gatinhos, muito amigos. Como não tinham nada que fazer no Verão, decidiram espreitar o quintal da velha casa.
Os dois entraram bem devagar e correram até ao castanheiro.
_Olha, Nico! Este ramo dá para fazer um baloiço formidável!
_É uma boa ideia. Vou já à garagem do pai! _ disse o Nico, correndo até lá.
Pegou numa tábua e numa grossa corda e voltou ao local.
Os dois trabalharam no baloiço e quando ficou pronto, ouviu-se uma voz:
_Qui! Qui! Que fazem aqui?
Ao princípio não ligaram e julgaram ser o vento, mas depois prestaram atenção...
_Qui! Qui! Que fazem aqui? _ disse uma barata, vestida de preto, que saiu da casa.
Os dois correram e esconderam-se na loja de gelados.
A velha barata voltou para dentro.
_ Mas que monstro! _ exclamou a Mariana.
Nico concordou:
_Sim, mas eu acho que aquele baloiço é mágico! _ olhando para o baloiço que agora estava rodeado de estrelas.
_Foi a fada Íris! _ respondeu Mariana encantada _ Vamos lá de novo!
_Está bem.
Os dois pularam o velho muro e aproximaram-se.
O baloiço parecia gritar:
_"Sentem-se! Sentem-se!"
_Vou experimentá-lo _ resolveu o Nico.
Montou o baloiço e balançou-se.
De repente subiu no ar e desapareceu.
_Espera! Eu quero ir aí! _ gritou Mariana e seguiu o exemplo. Encontrou então o irmão e um mundo mágico.
Parecia uma feira! Uma feira diferente. Numa barraca amarela e verde uma cadelinha oferecia a todos pipocas. O ursinho Kevin vendia balões coloridos e uma minhoca oferecia gelados deliciosos. Os carroceis eram só para eles. Não havia mais pessoas ali.
Depois do divertimento, uma fada humana vestida de arco-íris disse:
_Voltem já para baixo. A única saída é por ali. _ aconselhou ela apontando um alçapão no meio das nuvens.
Eles seguiram por ali e caíram na sua cadeira à mesa. Já havia escurecido e os pais aguardavam."

Monday, May 31, 2010

Lei 9/2010 de 31 de Maio

"Permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo
A Assembleia da República decreta, nos termos da al. c) do art. 161º da Constituição, o seguinte:
Art. 1º
Objecto
A presente lei permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
Art. 2º
Alterações ao regime do casamento
Os artigos 1577º, 1591º e 1690º do Código Civil passam a ter a seguinte redacção:
"Art. 1577º
[...]
Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código."
"Art. 1591º
[...]
O contrato pelo qual, a título de esponsais, desposórios ou qualquer outro, duas pessoas se comprometem a constrair matrimónio não dá direito a exigir a celebração de casamento nem a reclamar, na falta de cumprimento, outras indemnizações que não sejam as previstas no art. 1594º, mesmo quando resultantes de cláusula penal."
"Art. 1690º
[...]
1. Qualquer dos cônjuges tem legitimidade para contrair dívidas sem o consentimento do outro.
2. ................."
Art. 3º
Adopção
1. As alteraçõesintroduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal de adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.
2. Nenhuma disposição legal em matéria de adopção pode ser interpretada em sentido contrário ao disposto no número anterior.
Art. 4º
Norma revogatória
É revogada a al. e) do art. 1628º do Código Civil.
Art. 5º
Disposição final
Todas as disposições legais relativas ao casamento e seus efeitos devem ser interpretadas à luz da presente lei, independentemente do género dos cônjuges, sem prejuízo do disposto no art. 3º."
Pena que este diploma carregue à nascença a inconstitucionalidade do seu art. 3º...

Monday, March 15, 2010

Happy place

Não sei bem de onde me vem a necessidade constante de música de fundo, mas tenho quase a certeza que a culpa é do meu pai, que nunca tinha o auto-rádio desligado, gravava montanhas de cassetes com Queen, Dire Straits, Pink Floyd, Elton John e outros que tais, e me mandou aprender a tocar orgão quando eu ainda nem sabia distinguir a mão direita da esquerda. A verdade é que, só recentemente, quando a música me faltou, me apercebi de que ela foi um vício, desde toda vida: normalmente, antes de adormecer, deixo cuidadosamente o comando da aparelhagem junto à almofada, para que, ao acordar, consiga encontrá-lo sem precisar de abrir os olhos e carregar "on". Só a desligo quando saio de casa, depois de ligar o MP3, que só desligo quando chego ao carro e ligo o rádio. Até ao dia em que o rádio deixou de tocar e começou a deitar fumo. Morreu para não mais acordar. E conduzir se tornou praticamente impossível. Como estudar ou trabalhar sem música é impossível (estou perfeitamente convencida de que se não tive média de 15 na faculdade é porque nunca me deixaram estar a ouvir música enquanto fazia os exames).
E sempre que não há forma de contornar o silêncio e estou muito triste, ou cansada, ou revoltada, ou furiosa, há três cançonetas que (inexplicavelmente) me curam a alma e me fazem sentir no aconchego de um berço, embora não me lembre exactamente quando terei começado a ouvi-las:





Friday, November 13, 2009

Graciosa

Entrou na timidez de quem se habituou ao pé-ante-pé do medo de longos corredores. Trazia as pálpebras pintadas de azul, as unhas rosa e manchas negras nos braços. Que fez ao baton, dona Graciosa? Deixou-o talvez esborratado na chávena do café.
Sacode os cabelos, de vez em quando, imaginando caracóis ruivos de salão de cabeleireiro, os gestos de primeira bailarina no palco do consultório, e conta...
Apetece-me dar-lhe alguma coisa, dona Graciosa: um anel de brilhantes, uma coroa de rainha, um sonho qualquer. Dar-lhe talvez as minhas mãos. Tome, fique com elas, guarde-as no áspero aconchego das suas. E não seremos sozinhas.

Wednesday, October 14, 2009

não-prodígio


Passamos uma infância inteira a obedecer. A não dar problemas. A fazer muito poucas asneiras. A ter boas notas. Somos uma promessa, de soquetes brancas e tranças no cabelo. Uma bela expectativa. E um dia acordamos e não passamos de uma desilusão em estado adulto.

Sunday, March 8, 2009

Os nossos filhos

Falamos tanto da nossa crise... Esquecemos que quando deixamos de ter dinheiro para um carro novo ou para jantar num bom restaurante, há muito tempo que milhares de pessoas já deixaram de ter o que comer. Quando olhamos para o nosso futuro e pensamos no desemprego e em todas as coisas com que sonhamos e não vamos conseguir obter e pensamos em deixar o nosso país, a nossa casa, a família e os amigos para procurar os nossos sonhos fora de portas, não nos lembramos de todos aqueles que embarcam em qualquer coisa que flutue, com as suas crianças ao colo, na esperança entrar na Europa. E morrem ainda antes de chegar à praia.
Agora pensem que o dinheiro que os países europeus (sobretudo a Espanha) gastam tentando impedir que essa gente consiga atravessar a linha invisível da fronteira e em repatriamentos é suficiente para levar condições de vida e saúde a toda a África... Injusto, não é?
A nós não nos importa que para lá do Mediterrâneo, no grande continente africano, morram à fome e sem acesso aos mais elementares cuidados de saúde pessoas que são filhos, mães, pais, irmãos de alguém. Só torcemos vagamente o nariz quando os cadáveres vêm nas ondas, bater à nossa porta.


Tuesday, August 12, 2008

(Antigos trabalhadores da Fábrica do Mindelo recebem, no Tribunal do Comércio de Gaia, parte da indemnização que lhes era devida)



Uma foto que me fez recordar aquela famosa cena de "Philadelphia", em que "Miller" pergunta a "Andrew":

"_What do you love about the law, Andrew?"

E ele responde:

"_It's that every now and again - not often, but occasionally - you get to be a part of justice being done. That really is quite a thrill when that happens."

Friday, May 23, 2008