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Saturday, May 14, 2011

Rita

É a última noite e fizeram explodir no ar serenas flores douradas, que agora vejo de longe: atravessei para o outro lado do rio e da vida, já não tenho a capa sobre os ombros, nem os sapatos cheios de pó, nem choro a saudade antecipada de uma história que parece ter sido noutro século e parece ter acontecido noutro planeta. Nada disto perdeu a importância, ou o sentido, mas perdeu o tempo de fazer sentido. Para tudo existe um tempo, e aquele já passou. Vivi-o, assinei-o, recordo-o e guardo-o outra vez na gaveta.

As flores que explodem serenamente no céu nocturno não são tão belas como o teu sorriso, nem tão luminosas como o teu jeito de rainha, nem tão grandes como os teus braços capazes de abraçar o mundo _ o teu coração capaz de conter o mundo (e mais mundos houvesse). E o mundo dentro dos teus olhos tão sem impossíveis.

Nunca te disse (conforme nunca te disse tantas outras coisas) que os olhos da tua mãe me dão vontade de chorar por conterem tanta bondade. E que tens em ti a mesma ternura. Nem te disse que, quando Coimbra acabou, o que mais desejei trazer comigo para esta outra vida foste tu. Segurar-te com força nas mãos para não te perder nunca. E não te perdi, eu sei. Soube-o naquela noite em que fizemos desaparecer toda a gente à nossa volta, e restámos só nós as duas, e falámos de Deus, e chorámos. Sei-o de todas as vezes que ouço a tua voz e sinto que estendes os braços por cima da distância para me abraçar.

Quero dizer-te que também não me perdeste. Que nesta noite, mais do que em qualquer outra, penso em ti. E que a força que tenho é a mesma que tens. E só dá mais encanto aos nossos corações de manteiga. Mas isto já tu sabias.

Friday, February 25, 2011

magnólia


"A beleza é uma forma de justiça, quando já não existe justiça possível, é uma forma de alívio, quando já nada no mundo te alivia."



Angélica Liddell

Friday, January 21, 2011

Purificação

Vivia numa quinta por cima da dos meus avós. Sempre lá viveu e continua a viver, até hoje. Mesmo que já não em forma de pessoa, mas de chão ou arbusto ou rochedo. Era uma mulher maciça mas ágil, tinha a compleição forte de quem arrancou à terra tudo o que precisou para viver e no rosto as marcas do nascer do sol e de uma sabedoria ancestral, que transcendia tudo. Conhecia a lua e as suas influências, parecia capaz de falar com os animais e as curvas dos caminhos, foi ela quem me ensinou que os lagartos subiriam um dia pelas minhas pernas, sedentos de sangue, sabia histórias verdadeiras de bruxas e almas e gente boa que era ponte entre este mundo e o outro, e a voz dela continha serra, rochas, neve, rosmaninho e figos maduros. Um dia, vendo-me comer deliciada um queijo fresco, declarou-me que o tinha feito com as mãos cheias de sangue. E era verdade, como tudo nela. Sangue e coração e afecto e flor de cardo, à mistura com o leite, a escorrer com o soro pelos orifícios do acincho.

Mas o que recordo com mais saudade foi o dia em que, pela festa de Setembro, Purificação foi à quinta da minha avó bater os bolos. Quilos de massa num alguidar de esmalte, a exigir a mesma força que é precisa para cavar a terra pedregosa daquele chão avarento. E as mãos dela lá dentro, fortes, quadradas, cheias de sulcos negros. Nada mais limpo e mais puro. O negro da terra já fazia parte dela, não sairia nunca. Purificação transformava-se já em chão, arbusto, rochedo. O sangue de que tinha as mãos cheias era o mesmo que o que escorria das cabras quando as matavam, ou o que escorria dos pinheiros quando lhes golpeavam o tronco, ou o que me escorria pelas pernas, ou o que escorria pelas entranhas da serra e o povo bebia das fontes e das minas e matava a sede dos animais e fazia crescer as plantas.

Nesse Setembro, foi tudo diferente. Entendi a Purificação.

Thursday, March 19, 2009

Dia do Pai

Não podia deixar de partilhar aqui a lição de vida de um pai muito especial: chama-se Dick Hoyt e forma equipa com o seu filho Rick em maratonas e triatlos (corrida, natação e ciclismo). Para isso, Dick teve que aprender a nadar. Tudo seria muito simples, se Rick não fosse portador de uma deficiência que o impede de andar e falar. Ele comunica através da escrita num computador. Um dia pediu ao pai para correr numa maratona. E desde aí, a equipa Hoyt nunca mais parou. Porque o próprio Rick diz: "Quando corro, a minha deficiência desaparece."


Sunday, August 10, 2008

Palhaços sem fronteiras


Um membro da ONG "Clowns without borders" com crianças de Port-au-Prince, Haiti. (Foto de Eduardo Munoz)